CIVISMO E ANTIMICROBIANOS NA COLUMBICULTURA

Marc Ryon

UMA SÓ SAÚDE.

Nos últimos anos, deixámos de ver a saúde como um domínio estritamente dividido em sectores humanos, animais e ambientais, mas consideramo-la como um todo interligado, a que chamamos “One Health” ou traduzido “Uma Só Saúde”.

O princípio “One Health” afirma que a saúde humana, animal e ambiental estão indissociavelmente ligadas e só podem ser protegidas de forma sustentável em conjunto. Esta ligação estreita é bem evidente na luta contra a utilização abusiva de agentes antimicrobianos, conduzida por todos os sectores da ciência médica a nível global. Os antimicrobianos são fármacos utilizados para tratar doenças infeciosas em seres humanos, animais e plantas. É natural que, nesta breve exposição, falemos sobretudo de antibióticos (AB): são na sua maioria substâncias naturais ou semissintéticas produzidas por bactérias e fungos, com a capacidade de matar outras bactérias ou inibir o seu crescimento. Uma vez que os AB têm origem natural, é compreensível que, através da evolução, as bactérias (que são muitíssimo mais antigos do que os mamíferos), tenham desenvolvido mecanismos para sobreviver em ambientes que contenham AB ou similares. Trata-se de um processo de adaptação natural, que faz como que as bactérias mais bem-adaptadas têm mais probabilidades de sobreviver e chamamos os genes responsáveis por esta adaptação «genes de resistência». Numa população normal de bactérias, existem sempre algumas - embora em minoria - que possuem «genes de resistência».

No entanto, o (ab-)uso humano de AB em larga escala favorece as bactérias resistentes em relação às outras (= as bactérias sensíveis). As bactérias sensíveis deixam de crescer ou morrem, enquanto as resistentes sobrevivem e podem dar origem a uma população de bactérias maioritariamente resistentes. Para além disso, aquelas bactérias podem transmitir estes «genes de resistência» umas às outras, o que agrave o problema. Atualmente a medicina humana e veterinária enfrentam sempre com mais frequência situações em que sempre mais bactérias são resistentes a cada vez mais AB diferentes. Assim pessoas (e animais) com infeções morrem porque os AB se averiguaram ineficazes e outros tratamentos médicos - como cirurgias, cesarianas, quimioterapia, etc. - se tornam mais arriscados.

O facto é que a «resistência antimicrobiana» (RAM) é uma das principais ameaças globais à saúde pública e ao desenvolvimento, resultando em elevada mortalidade e altos custos económicos. Estima-se que em 2019 quase 5 milhões de mortes estiveram associadas - diretamente ou indiretamente - a infeções resistentes a estes fármacos, um número que pode crescer até 10 milhões /ano nas próximas décadas. Para além disso, o Banco Mundial estima que a RAM poderá resultar em custos adicionais de saúde de 1 trilhão de dólares até 2050 e perdas no produto interno bruto (PIB) de 1 até 3,4 trilhões de dólares/ano até 2030. Para traduzir em linguagem popular: existe uma ameaça real para a nossa saúde e também para a nossa carteira.

Talvez alguns otimistas já estão a pensar que, felizmente, existe a ciência que, a seu tempo, fornecerá novos produtos: uma ideia piedosa e interessante, mas neste momento errada. Não se deixe enganar por todo o tipo de nomes fantasiosos que aparecem aqui e ali, porque todos as substâncias ativas atualmente no mercado pertencem a classes descobertas há mais de 30 anos; alguns AB novos ainda estão em desenvolvimento e ainda não disponíveis no mercado para uso humano ou veterinário.

O USO PRUDENTE E INTELLIGENTE DOS AB

Certos excessos existentes em outras atividades com pombos devem ser exemplos a evitar.
Há alguns anos, na Bélgica, o AMCRA (Centro de Perícia em Consumo e Resistência Antimicrobiana em Animais) investigou a columbofilia e chegou a conclusões assustadoras em relação à utilização irresponsável de AB. Constataram que a columbofilia belga é afetada por uma utilização injustificada, ilegal e excessiva de AB. Esta utilização caracteriza-se pela aplicação rotineira de tratamentos com AB para prevenir doenças e para melhorar o desempenho desportivo. É claro que a columbicultura ainda não chegou a esse ponto, mas é bom ter cuidado. Os AB são todos fármacos sujeitos a receita médica, no entanto, são frequentemente obtidos através de canais ilegais e a sua qualidade e segurança podem ser questionadas. Em geral os criadores de pombos têm pouco noção dos perigos da utilização excessiva de AB, não percebendo que conduz a um risco acrescido de seleção e propagação da resistência aos AB. O contacto direto e frequente com os pombos no pombal, torna real o perigo de o «pombeiro» e a sua família entrarem também em contacto com bactérias resistentes, para além disso interfere na seleção natural dos pombos com base em critérios sanitários e de resistência às doenças.

Os 10 mandamentos do que não fazer:

1. Não utilize AB para mascarar falhas na gestão do pombal: instalações inadequadas, superlotação, etc.

2. Não administre AB «por precaução» ou de maneira rotineira/profilática sem sinais clínicos e sem diagnóstico.

3. Não automedique, nem faça suposições, nem recorra ao que «funcionou» noutro pombal qualquer: um diagnóstico certo é essencial.

4. Não interrompa tratamentos prematuramente, não altere as doses indicadas. São erros que favorecem as bactérias resistentes.

5. Não utilize AB sem isolar as aves doentes, evitando – se possível - medicar o pombal inteiro.

6. Não utilize AB para doenças não bacterianas (não atuam contra fungos, vírus, parasitas).

7. Não partilhe nem troque AB: cada população colombina tem as suas particularidades.

8. Não use os AB como primeira linha de tratamento. Dê prioridade à biossegurança, vacinação, pro e pré-bióticos, nutrição equilibrada, higiene, redução do stress, etc.

9. Não misture AB sem sinergia comprovada (pode ser antagónico, tóxico ou promover resistência).

10. Nunca, mas NUNCA utilize por iniciativa própria AB reservados como sendo de último recurso na medicina humana.

VAMOS ASSUMIR A NOSSA RESPONSABILIDADE

Concluo sublinhando que os pontos de vista aqui expostos não são os de um punhado de idealistas sem noção do mundo real, mas sim os de todas as organizações de saúde humanas e veterinárias, tanto a nível mundial, como europeu e nacional.
Talvez não seja possível que tudo corra na perfeição de imediato, mas estar mentalizado para esta problemática já é, por si só, um ponto positivo.

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